Quem vive futebol já se acostumou com a possibilidade de ir do céu ao
inferno (e vice-versa) em um instante, em um jogo, um mês. É muito comum também
que momentos transformem vilões em heróis improváveis, ou heróis em vilões inesperados.
Isso é do futebol e faz parte da magia desse mundo que a graça está exatamente
nas possibilidades e improbabilidades. Que graça teria o futebol se ele fosse
óbvio e lógico? Certamente ele não seria a paixão nacional que é. Isso tudo faz
parte do futebol. O que não faz parte – ou não deveria fazer – do futebol e nem
de nenhum outro meio é a ingratidão. Por isso, precisamos pedir desculpas a
Mano Menezes.
Mano chegou ao Cruzeiro em 2015 com a difícil missão de nos livrar de um
dos nossos maiores medos: a segunda divisão. Depois de uma temporada pífia,
ressaca de um bicampeonato brasileiro e tendo perdido os principais jogadores daquelas
conquistas, Mano chegou já quase nos acréscimos. Muitos já tinham jogado a
toalha, mas com a chegada do treinador, a equipe mudou a postura, embalou uma
sequência de vitórias e terminou na surpreendente 8ª colocação. Uma proposta
milionária da China – que atire a primeira pedra quem não aceitaria – interrompeu
a primeira e curta passagem do ex-treinador da seleção no Cruzeiro.
Ano novo, vida nova, luta para não cair de novo. E, mais uma vez, quem veio
nos salvar? Qual é o nome dele? “My name is Mano Menezes”. Eu poderia arriscar
a dizer que 5 em cada 5 cruzeirenses que você perguntar qual é o maior medo, a
resposta seria: cair para a segunda divisão. Das poucas vezes que corremos esse
risco real, o Mano Menezes estava lá para nos livrar de duas. Sempre com muita
personalidade e jogando um futebol consistente, objetivo e suficiente – ou quase
sempre. O futebol do Mano nunca foi ofensivo nem de encher os olhos nem as
redes. Sabemos isso desde que ele apareceu bem no Grêmio, depois foi campeão no
Corinthians e chegou à seleção. Esse futebol suficiente, seguro, é também perigoso.
Está sempre por um fio, uma jogada, um gol, uma defesa. Se dá resultado,
fantástico! Como ele é inteligente e estrategista né? Se não dá, o treinador é
retranqueiro, medroso, burro...
Em 2017, o Mano teve, pela primeira vez, a chance de treinar o Cruzeiro
desde o primeiro dia do ano. Com o mesmo futebol que segurou o time na série A
duas vezes, o Mano segurou resultados por várias partidas e, ao final, o
Cruzeiro levantava seu quinto caneco da Copa do Brasil em cima do "poderoso" Flamengo. Obrigado, Mano, por um dos melhores momentos que já senti como torcedor do Cruzeiro! Eu estava lá no Mineirão e nunca vou esquecer daquela emoção na defesa do Fábio e no gol do Thiago. Mas o que diriam os torcedores sobre o Mano se o o chute do Diego tivesse sido um pouco mais pro canto e o escorregão do Thiago Neves tivesse o atrapalhado? "Covarde, jogou na retranca contra o Flamengo em casa." Mano continuou, assim como seu futebol suficiente, e veio mais um ano. Nem o
mais otimista do torcedor acreditava que o Cruzeiro poderia conquistar o
inédito bicampeonato da Copa do Brasil. Pois o futebol do time do Mano foi
suficiente para isso, batendo, dessa vez, o favorito (e sempre favorecido) Corinthians.
O ano de 2019 marcava a longevidade, tão rara na história celeste e no
futebol brasileiro. Mano era o técnico mais longevo do Brasil e um dos mais da
história do Cruzeiro. Surpreendentemente, o seu time, pela primeira vez,
parecia ser um pouco mais que suficiente. O Cruzeiro começou o ano voando,
arrancado elogios e sendo apontado como favorito a tudo. Mas era só um início, Campeonato
Mineiro, fase de grupo da Libertadores, equipes mais fracas até então. Muita
coisa ainda tinha para acontecer no ano. O que não precisava ter acontecido e
ninguém esperava por foi a crise interna que explodiu no clube com as denúncias
de corrupção da diretoria celeste.
Mano ainda conseguiu blindar o time como pôde e garantiu uma vitória
maiúscula e importante contra o arquirrival Atlético Mineiro nas quartas de
finais da Copa do Brasil. Mas era evidente que time e torcida tinham sentido o golpe.
Para piorar, o time perdeu peças importantes como Lucas Silva e Lucas Romero,
além da lesão de Rodriguinho. Ainda assim, o futebol do Mano não mudou, era o
mesmo de 2015, 2016, 2017 e 2018. Continuava suficiente em alguns casos e próximo
de suficiente em outros. Assim como poderia ter sido nos anos anteriores. Mas
por um detalhe ou outro, a sorte estava ao nosso lado. Tínhamos também uma válvula
importante de escape que costumava decidir nesses momentos de quase
suficiência. Mas perdemos também essa válvula logo no início do ano em uma
negociação esquisita e conturbada, onde ela mesma forçou a saída e a diretoria
achou conveniente para pode maquiar o balanço fiscal de 2018.
O Mano não mudou. O que mudou foi a sorte, o time, o ambiente. O Mano
mudou a sorte e o ambiente quando precisamos em 2015 e 2016. Dessa vez ele não
foi capaz. Mas ele foi capaz de nos salvar duas vezes quando precisamos e de
nos dar duas Copas do Brasil quando menos esperávamos. Sem falar nos dois
campeonatos mineiros em cima do maior rival. Por tudo isso, devemos gratidão. Gratidão
é um sentimento bonito. Assim como ingratidão é feio, e muito. Poucas vezes me
senti tão envergonhado em ser cruzeirense quanto ontem. Mas não pelo futebol do
time. Senti vergonha ao ouvir as vaias e ofensas pesadas proferidas a um dos
maiores treinadores da nossa história. Senti vergonha ao vê-lo fazer um sinal
de “tudo bem, eu vou embora” para a torcida. O Mano não merecia isso. Respeito
quem queria mudança – embora não concorde que ela comece e muito menos termine
pelo técnico -, mas não respeito quem vaiou e ofendeu um cara tão profissional,
dedicado e vitorioso da história celeste.
Mano, desculpai-os, eles não sabem o que fazem.
Por: Tarcísio Dias





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