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quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

Guerreiros Imortais: Alex, ídolo, mas acima de tudo, esperança


Há algum tempo atrás me indagaram com uma questão pertinente que gerou reflexão: Vitor, o que você espera do futebol?

À primeira vista, uma pergunta simples, mas que se complica depois de um rápido raciocínio visto que o maior dos apaixonados pelo ludopédio vem sofrendo com a forma na qual o esporte vem se “desenvolvendo”, gerando diversas preocupações com seu futuro.

Como bom saudosista, vez ou outra me pego revendo grandes jogos, me entretendo com grandes histórias e afins, principalmente se tratando de Cruzeiro. Invariavelmente, chego em vídeos, casos, entrevistas e todo tipo de mídia relacionada a Alex. Dentre tantos ídolos de nossa história já citados nesta série, o que mais me chama e sempre me chamou atenção é este exímio camisa 10. Talvez por ter feito parte de minhas primeiras experiências no estádio, por ter sido grande responsável por meu interesse colossal em futebol.

Alex foi no futebol metáfora da vida. Desde o início precoce no Coritiba, em que representa inseguranças de nossos dias, às críticas injustas no Palmeiras, com quais sempre sofremos, o inferno astral Parma/Flamengo, em que nos encontramos vez ou outra, a pior das injustiças na seleção, que representa enormes frustações em nossas vidas, a redenção no Cruzeiro, que nos mostra as voltas que o mundo dá, enfim, Alex é mais que um simples jogador, sempre teve algo a mais para nos passar.

Sua carreira é algo belíssimo, eu a destrincharia com enorme prazer, mas para ser mais breve, focarei em sua história no Cruzeiro.


Apesar de todas suas incontáveis qualidades, Alex sempre sofreu com injustiças ao longo de sua carreira e no Cruzeiro não seria diferente. Em 2001 chegou à Toca da Raposa num Cruzeiro de ótimos jogadores que nunca conseguiram ser um grande time. Em um período a se esquecer, Alex não conseguiu ser o craque de sempre, ainda que tenha feito boas partidas. Então, numa atitude sofrível que poderia ter comprometido o futuro do clube, o treinador Marco Aurélio, respaldado pela diretoria, decidiu não contar mais com o camisa 10 dali para frente, um absurdo sem precedentes.

No fim de 2002, retornou para nunca mais sair de nossos corações. Apesar da desconfiança maciça por parte de imprensa e torcedores, voltou para provar que não precisava provar nada para ninguém. Sob a batuta de Luxemburgo, iniciaria a temporada que até hoje não terminou para os cruzeirenses, o ano de 2003.

Alex foi liderança, técnica, magia, fantasia. Alex foi o principal jogador de um dos maiores times da história de um clube com essa grandeza. Foi craque, exemplo. Foi inspiração. Presença eterna no imaginário da torcida. Alex acima de tudo exerceu uma função social naquele ano. Quantos foram os torcedores que viam naquele canhoto a válvula de escape dos problemas cotidianos? O estresse do trabalho se esvaía sempre em mais uma atuação de gala. Quantos foram os torcedores de outros clubes que não paravam o que estivessem  fazendo para ver mais um show dele? Alex indiretamente desmarcou reuniões, provocou ausências em aniversários, pois mais noventa minutos de Alex eram sempre indispensáveis. Despertou o interesse de crianças, o suspiro dos mais velhos relembrando Dirceu, Ademir da Guia, Zico e tantas outras lendas. O tempo parava, a respiração ficava mais ofegante, e o mundo girava em torno de uma perna esquerda e uma cobrança de falta que invariavelmente encontrava as redes do arqueiro. Para sempre o torcedor irá pedir aos céus mais um Alex, torcer para que num passe de mágica surja um careca canhoto vestindo a 10 e nos dando alegrias. Falaríamos durante uma semana inteira do que representou Alex para todos nós, mas é preciso seguir, ás vezes infelizmente, como em 2004, quando seguiu seu caminho rumo à Turquia.

Lá se tornou Comandante Alex, virou estátua, de forma merecidíssima. Quando foi embora, uma multidão parou em seu jardim, implorando para que ficasse, mas, novamente, era impossível.

Em seu retorno, causou furor e comoção em três das maiores torcidas do país que sonhavam em ver novamente aquela classe desfilando por Curitiba, São Paulo ou Belo Horizonte vestindo seus mantos. Como qualquer homem em sã consciência, foi bom filho e voltou para casa, encerrando a carreira de forma magistral.

Retomando ao início do texto, àquela pergunta, sobre o que espero do futebol, acho difícil explicar com conceito, uma personificação seria perfeita.

Em meio à padronização dos gramados, dos estádios, das formas de jogar. Em meio ao futebol tão físico, pouco jogado. Em meio a tantos atletas sem alma, extravagantes, egocêntricos, que não entendem o que representam ao torcedor. Em meio à tantas coisas desanimadoras, eis que encontramos Alex, um ídolo, diferenciado e é isso que eu espero do futebol, que surjam pelo menos jogadores parecidos a ele, em todas suas nuances, dentro e fora de campo.

Eu preciso de ídolos de sua magnitude, de mais meias com sua classe, genialidade, que não veem, mas anteveem uma jogada. Preciso de mais pernas esquerdas que façam a alegria da massa, de mais cobranças de falta certeiras, de mais gente que fala mais com os pés, de gente que tenha Bom Senso, lucidez, gente que faça o que este rapaz fez.

Alex conseguiu ser ídolo máximo de três clubes no Brasil e um na Europa. É admirado por todo o país aqui sem nunca ter feito grande sucesso na seleção. É uma personalidade singular.

Daiane e Alex com os filhos Maria Eduarda (11), Antonia (8) e Felipe (5)
O Alex do Coxa, do Palmeiras, do Cruzeiro, do Fener. Da Daiane e seus filhos. Da história, de quem ama futebol, pobre da Copa do Mundo por não ter tido você.

Tive a oportunidade inesquecível de encontrar-lhe e foi de uma humildade espantosa, realmente te agradeço por tudo. Pela foto, pelo autógrafo, por ter retornado ao Cruzeiro após a canalhice feita com você em outrora, pelas faltas, pelos cruzamentos para Cris, Luisão e Deivid, por ser tão entrosado com Aristizábal, por ter tido paciência com nossa torcida, pela letra contra o Flamengo, por encobrir o Kléber em Cruzeiro x Fluminense, por ter feito o futebol tão especial para mim, enfim, por simplesmente ter sido Alexsandro de Souza, essa figura inigualável, meu maior ídolo. O futebol se mantém vivo por gente como você.
Alex no jogo de despedida no Mineirão com a torcida do Cruzeiro. 

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