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terça-feira, 3 de maio de 2016

Entrevista: Carlos Guimarães!

Hoje conversei com um dos caras que mais admiro e respeito na rádio esportiva do Rio Grande do Sul. O grande Carlos Guimarães, da Rádio Guaíba de Porto Alegre, confere ai o nosso bate papo. 

Imagem: (www.facebook.com/csguimaraes1)

Quem foi o cara que te inspirou para ser jornalista esportivo?

Na verdade, não houve uma figura única a se inspirar. Talvez a história seja um pouco diferente em relação a outros profissionais que estão no meio. Eu queria ser jornalista musical. Sempre gostei de música, de rock, meu sonho era escrever sobre música. Acabei falando no rádio sobre futebol. Entretanto, o futebol sempre esteve presente, era uma paixão também. Só que eu sempre achei que entendia mais de música, o que na verdade é um erro. Revendo meus passos, lembro que anotava sobre os jogos, me interessava por esquemas táticos e via muitas partidas antes de ser jornalista. A música virou um hobby e o futebol profissão. 

Como foi trabalhar ao lado do "MESTRE" Claudio Quintana Cabral?

Um aprendizado gigantesco. Foram quatro anos ao lado do Cabral (2008-2012), que eu já admirava mesmo na concorrência. Era plantão entre 2008 e 2010, me tornei comentarista no final do ano de 2010. Antes do meu primeiro jogo como comentarista, o Cabral me procurou e disse: "ó, o roteiro é básico: apontar o problema, ventilar as hipóteses e sugerir as soluções". Um roteiro para qualquer texto, qualquer trabalho. Assim eu procuro comentar: identificar, questionar e sugerir. Mas pra isso, é preciso entender o que é um possível problema, relativizar as hipóteses e ter em mente uma possível solução. Cabral fazia questão de frisar isso. Era um cara atualizado, mesmo veterano. Assistia a todos os jogos e tinha informações sobre os times. Via o jogo como poucos e tinha carisma, forma e conteúdo únicos.

Como tu analisa o Grêmio para o inicio do Campeonato Brasileiro?

Acho que vai ser um campeonato muito equilibrado. Vejo ainda o Corinthians (pelo treinador, o Tite, que consegue tirar o máximo de jogadores médios) e o Atlético-MG (pelo grupo que tem) como superiores. Depois, um segundo bloco, onde entra o Grêmio, junto com outros. É muito difícil o campeonato, mas acredito que a fórmula de pontos corridos trouxe um aprendizado: entrar com o objetivo de vencer. Não pensar em vaga, mas sim na vitória. Vaga é consequência, não objetivo. 


Na tua opinião o que é ser jornalista?

Ser jornalista é entender uma função que é essencial para a sociedade. Nos últimos tempos, nos tornamos questionados justamente porque subvertemos na prática um pouco do nosso ethos profissional. Nós levamos informação. As pessoas PRECISAM de informação. Informação é uma das bases de uma sociedade democrática. Entretanto, quando NÓS não colocamos isso na frente das outras coisas, há um problema. O público identifica isso rapidamente e isso nos atinge. A culpa é totalmente nossa. Muitos buscam coisas que são periféricas na nossa profissão, como fama ou um suposto "sucesso profissional". Ora, o que é ser bem sucedido como jornalista? Pra mim é: você informar e os outros acreditarem naquilo que você colocou. Essa é a mágica. Entretanto, junta um modelo de negócio que é gerido por muita gente que não é do ramo, o pensamento das grandes empresas em obter lucro, o pensamento de jornalistas em ter "fama" (uma ilusão) ou esse flerte perigoso com o ramo do entretenimento e temos um jornalismo que se distancia de seu objetivo inicial. Nessa escala de valores, a tal função social parece importar menos que as outras coisas, quando na verdade deveria estar no topo da pirâmide. 

Como foi teu inicio na profissão?

Bom, queria escrever sobre música, acabei falando sobre futebol. Entrei como estagiário de produção da Rádio Gaúcha em 1999, produzindo o Show dos Esportes e o Plantão Gaúcha. Foi uma época bacana, de muito aprendizado. Diferente dos dias atuais, a internet não era tão popular, as fontes eram mais acessíveis, não havia assessoria de imprensa do jeito que é hoje. Era mais "romântico", talvez, mas não mais fácil. A produção era mais ativa e quem entrava realmente apreendia o estágio como uma fase de aprendizado. Hoje em dia, talvez por uma questão de geração, o estagiário já chega com suas referências (geralmente da internet) com uma autoridade que despreza o conhecimento mais próximo de quem está há tempos no meio. Esse é outro papo, para ser desenvolvido em textão na internet (risos). Um nome fundamental para minha "criação profissional" é o do Luciano Périco. Antes de ser repórter, o Lucianinho era um excelente produtor. Formamos uma equipe forte na produção e percebi que as minhas ideias e concepções de rádio se dão muito por esta época, o início de tudo.

Falando em Grêmio, tu considera pelo estilo do técnico Roger que é mais "fácil" ele obter sucesso nos pontos corridos do que no mata-mata?

Talvez. Eu lembro que o Roger no ano passado trabalhava o grupo com módulos de cinco jogos. Um planejamento longo, que consistia em dividir as etapas em blocos de cinco partidas. No mata-mata não tem isso. É um planejamento de confronto, contra uma mesma equipe, com aspectos emocionais, técnicos, físicos e táticos diferentes. Talvez seja uma questão de método, possivelmente.

Como tu vê o jornalismo esportivo gaúcho daqui uns 5 ou 10 anos, ainda mais agora com alguns da mídia assumindo seu clube do coração, como por exemplo o Rafael Serra e o Fabiano Baldasso?

Acho que o futuro da mídia não passa diretamente por assumir ou não o clube de coração. São duas coisas diferentes. Entretanto, tenho a convicção que o futuro do jornalismo passa por vocês. O jornalismo é cada mais vez participativo, convergente, de abertura para a audiência. Também acredito que ele passe a ser mais autoral, ou seja, falaremos menos em nome das "instituições" e mais em nome "de nós mesmos". É impossível dissociar o futuro da tecnologia e dos modos de consumo, mas acredito que, em termos de conteúdo, a participação do público terá um valor preponderante para definir este futuro. 

E tu acha que é o caminho o jornalista assumir seu clube, ou o ficar em anonimato é ainda a melhor solução?

Isso não deveria ser relevante, mas é, e acredito que por um motivo essencial: diante de tantos "resguardos" e do pedestal de monopólio que a imprensa já teve, alguns escudos foram cômodos para tentar nos proteger. Durante anos, nos considerávamos especiais pelo pressuposto da isenção: sem time, sem religião, sem partido político, sem ideologia, sem emoção. Ora, somos seres humanos. Temos tudo isso, só que podemos fazer jornalismo e informar o público sem que estes fatores interfiram no que a gente vai passar. Acho que o público quer sobretudo enxergar as nossas verdades e não esse pedestal frágil da suposta isenção. Só que do outro lado há também um público que se acostumou com esse discurso e que, daqui a pouco, não saberá separar as coisas. É um julgamento que faço e que pode ser totalmente errado. Ainda acho que não estamos preparados pra isso, mas também temos que parar com esse discurso da "isenção acima de tudo". Somos jornalistas e analistas desprovidos de paixão e racionais na análise, isso sim. Agora, quando estamos diante da opinião pública, mascarar nossas "verdades" já não cola mais. 

Agora falando um pouco da tua emissora, que vem crescendo e se destacando novamente, no que tu atribui o sucesso da " Nova Guaíba"?

Acho que é porque a gente se preocupa com jornalismo. Hoje tá muito pulverizada a coisa, a discussão esportiva virou um papo de bar em alguns programas, em "torcedorismo" em outros, com uma programação padrão onde se reproduz mais do que se cria. É um papo longo sobre um pensamento que tenho a respeito do modelo de programação das rádios esportivas, mas isso não cabe agora. Acho que a gente se preocupa em informar e montamos a nossa equipe buscando profissionais que vão ao encontro do que precisamos, com narradores e comentaristas mais técnicos, repórteres mais informativos e coesos. Não tem segredo, é só gente fazendo jornalismo e fugindo um pouco dessa obsessão de "precisar causar a todo instante", que não se porque se instalou em alguns de nós. Acreditamos que a recompensa virá com o tempo. Aliás, já se vê que existe uma repercussão positiva. Seriedade, compromisso com o público, respeito à profissão e compreensão da modernidade, acho que é por aí o momento. Com calma e sem essa busca incessante em ser o "primeiro lugar a qualquer custo". Esse campeonato a gente deixa pros outros, que parecem não pensar em outra coisa.

Como tu vê essa nova leva de jornalistas e como é ter uma "concorrência" com os blogs?

Não vejo como concorrência. Ou se for concorrência, que surjam mais e mais. Mais rádios, mais blogs, mais veículos. Uma mídia independente forte, com leitores, com acessos. Nunca vou querer o monopólio, quero a pluralidade, de enfoques, de opiniões, de meios, de produtos, de modos de consumo. As pessoas não entendem que TODOS que estão nesse meio participam do mesmo barco. A queda de um é a nossa queda. Um meio onde só UM é forte distorce opiniões, distorce formação destas opiniões e distorce, principalmente, a ideia de pluralidade dos meios de comunicação. Que tenhamos mais gente nova, mais blogs e mais gente fazendo barulho, é disso que precisamos, não de uma emissora com duzentos por cento de audiência no Ibope, algo que devasta o mercado e que, no final das contas, só serve pra meia dúzia que comandam o tal negócio.

Qual a tua visão sobre blogs esportivos? E como lidar com os caça cliques no meio do jornalismo?


Como coloquei ali, que sejam bem vindos! Mais blogs, mais gente fazendo jornalismo. Meu medo só é quanto ao modelo de financiamento dessa gente toda. O espaço existe e é ilimitado (a internet). Contudo, como pagar toda essa gente? Como produzir um jornalismo sustentável que seja desvinculado das corporações? Por enquanto, o modelo se baseia em cliques, por isso o tal caça-cliques. Não deveria, também subverte nossa prática, gerando um conteúdo discutível e manchetes mais ainda. Mas é o que temos. Posso criticar o modelo, mas não condenar. Senão vou reivindicar para as grandes empresas o predomínio da credibilidade e isso não é correto. Quero mais blogs, mais qualidade, mas também que fuja desse sistema que corrompe um pouco a razão de ser da nossa profissão.

Quem chega mais preparado para o campeonato brasileiro? E da dupla GRENAL, quem tu vê com melhores chances no Brasileiro e Copa do Brasil?



Corinthians, pelo treinador, esse é superior aos outros e sabe montar time para o mata-mata. Atlético-MG, pelo grupo montado e com um bom treinador. Depois, um bloco com o Grêmio, São Paulo e depois Cruzeiro, Santos, Palmeiras, Fluminense e Inter, que foi mais longe que o Grêmio no Gauchão, mas precisa de alguns reforços e de refinar alguma coisa no time. Na verdade, todos precisam desses ajustes, considerei um primeiro semestre que não passou do razoável para os times brasileiros. Talvez por esse equilíbrio, o segundo pelotão ali tenha mais clubes que deveria. E o primeiro pelotão (Corinthians e Atlético-MG) não esteja tão na frente assim. 

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