Argentino por natureza, mineiro de coração, este é o Juan Pablo Sorín. Lateral esquerdo por origem, canhoto e considerando o “elemento surpresa” do ataque. Superando-se tanto ofensiva quanto defensivamente, ele chegou a fazer algumas partidas como volante. Marcado pela dedicação e raça que demonstrava dentro dos gramados, Sorín tornou-se um grande ídolo por onde passou.
Tudo começou nas categorias
de base do Argentinos Juniors, onde o lateral fez sua primeira partida em 9 de
setembro de 1994, contra o San Lorenzo. Nos próximos seis meses, Sorín esteve
na Itália, jogando pela Juventus. Não se enquadrando na equipe e com poucas oportunidades,
o mesmo retorna em 1996 para iniciar a temporada de títulos na Argentina.
Jogando pelo River, entre 1996-2000, Juampi (como ficou conhecido principalmente
no país de origem) atuou em 152 jogos e marcou 15 gols. Neste período,
comemorou por três vezes o torneio Open (1996, 1997 e 1999), uma Libertadores
da América (1996), um Clausura (1997) e uma Supercopa dos Campeões da
Libertadores (1997).
Sendo um dos destaques do
River, após ter mostrado toda sua versatilidade, Sorín chega ao Brasil em 2000,
sendo considerado a maior contratação da história do Cruzeiro. A adaptação ao
país não foi fácil. Mas logo, acolhido pelo clube, com o apoio da torcida celeste,
o lateral foi ganhando espaço e demonstrando toda sua habilidade e raça,
mostrando aos poucos que valia o investimento feito pelo Maior de Minas.
Na sua primeira passagem por
Minas (2000-2002) o jogador participou de 111 jogos e marcou 17 gols. Os títulos,
Copa do Brasil, Campeonato Mineiro e uma Sul-Minas. Certamente um dos jogos
mais marcantes para os cruzeirenses e para Juampi, foi a Final da Sul-Minas.
Foi contra o Atlético-PR, no
Mineirão, casa cheia, cheia de apaixonados querendo soltar o grito de campeão. Sorín
já sabia que aquela partida era sua despedida, tinha sido vendido a Lazio, estaria
na próxima temporada na Itália. Mas ainda tinha uma taça para levantar e
comemorar ali, no Mineirão. Com um corte no supercílio, o lateral seria
substituído, devido ao sangramento exarcebado. Mas, com sua raça inabalável,
ele recusou-se a sair de campo e como um predestinado, marcou o gol do título. O
jogo já tinha passado dos 30 minutos do segundo tempo, quando o lateral Ruy fez
ótima jogada pelo lado direito, chegou à linha de fundo e tocou pra trás, onde
Sorín recebeu livre e tocou para o gol. Cruzeiro 1X0 Atlético-PR. Os mais de 60
mil torcedores no Mineirão vão à loucura.
Sorín escrevia seu nome na
história do Cruzeiro de uma maneira incrível, deixando gotas de sangue e lágrimas
no gramado do Gigante da Pampulha e escrevendo uma bela carta de despedida para
nós torcedores:
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| Sorín representou a garra na conquista da Sul-Minas |
“Setenta e cinco mil caras esperando ver o Cruzeiro campeão. Não é comum e é até anormal muitas camisas argentinas, celestes e brancas, no Brasil todas sentimentalmente destinguíveis. Observo a torcida e na arquibancada há uma bandeira argentina. Que Orgulho! Contenho as lágrimas, soa o apito. Um choque forte, sangue. De novo? Quarto corte na cabeça em dois anos e meio. Queria jogar e o juiz reserva canarinho disse que havia muito sangue. Peço-lhe, por favor. Hoje não me deixe de fora, irmão! Ele não entende bem, mas permite-me entrar. Serão seis pontos no intervalo, 0x0. Com uma bola na trave e um susto forte. Parece uma bola perdida, mas sei que o Ruy vai ganha-la. O ‘cabeção’, meu amigo e parceiro de quarto, vai tocá-la por um lado e buscá-la pelo outro. Não sei o que faço, a não ser confiar nele, ir além do sonho da despedida. E não há tempo pra pensar, com três dedos e meio esquesitos, de prima, com a sempre canhota bendita, a rede se mexe. É o mundo que explode. Vem o delírio, a festa, não pode ser real as cabecinhas que pulam descontroladas, a camisa voando na mão e um grito eterno, inesquecível, uma dança especial. Faltam segundos e não existe sensação comparável como a de ser campeão. Somos irmãos, somos um punhado azul de raça inquebrável, enquanto o pessoal na arquibancada baila, grita, goza e por fim estoura com o final. Vem a enorme emoção e comemoro sempre, desenfreado, sem limites, como se fosse a última vez. Comemoro e cumprimento cada canto maravilhoso do Mineirão. Vejo os rostos de alegria e até hoje, nada sai da minha mente. Depois de tudo, a surpresa com a presença de minha mãe, exatamente no dia das mães, e é impossível não chorar. Finalmente recebo a copa tão desejada. É bonito ser campeão. É grandioso ser capitão do Cruzeiro e ser campeão. Imagino Minas, imagino BH. Tudo se acaba e não podia ser tão perfeito. Será que sonhei? Nem um sonho seria tão incrível. Estou partindo e pensando se algum outro dia serei tão feliz. São muitas expectativas e as vontades de sempre, mas espero um dia retornar à minha segunda casa.”
E ele retornou, a promessa
foi cumprida. Após passar pela Lazio, Barcelona e PSG. Em 2004 ele retorna para
Minas Gerais, lugar que ama e é amado. Lugar que tornou-se ídolo de uma gigante
nação azul e branca. Foi uma rápida passagem, fez um gol tendo participado de
nove jogos. E então, embargou para sua nova estadia na Espanha, agora,
defendendo o Villareal. Participou de importantes jogos, marcou oito gols, entre
2004-2006.
Jogando pela seleção
Argentina, Juampi participou da equipe sub-20 em 1996 e conquistou o Mundial
daquele ano. Com a equipe principal, o mesmo atuou com Daniel Passarella, que
sempre elogiou o lateral e com Bielsa, treinador que Sorín era fã. Sob os
comandos dele, o lateral marcou 9 gols e participou de 26 jogos. Bielsa dizia
que Sorín é “a imagem da seleção
argentina”, devido à raça e entrega que ele demonstrou por tantas equipes
pelo Mundo. Ele disputou as copas de 2002 e 2006.
Em 2006, após a copa da
Alemanha, o atleta transferiu-se para o Hamburgo, onde começou a sofrer com as
várias lesões. Atuou em apenas 24 partidas em um período de dois anos pelo time
alemão, 2006-2008.
Estava chegando a hora de
parar, o corpo já estava cansando. As pernas não correspondiam mais com tanta
eficácia as coordenadas do cérebro. A aposentadoria ocorreu no Clube que
aprendeu a amar, em 2009.
Na sua terceira passagem
pelo Cruzeiro, ele teve uma atuação discreta. Participou de apenas seis
atuações e sofreu com muitas lesões.
Comandado por Adílson Batista, a única partida em que jogou os 90’, foi
contra o Universitário de Sucre, da Bolívia. Pela primeira fase da Copa
Libertadores. Libertadores esta, que o Sorín viu dentro do Mineirão, outros
argentinos comemorarem o título. A última partida oficial, foi contra o
Palmeiras, no antigo Palestra Itália.
A despedida não poderia ser
aquela, longe de Minas Gerais, longe do gigante da Pampulha, longe do
apaixonado torcedor celeste. Assim, após anunciar a aposentadoria em 28 de
julho de 2009, o Cruzeiro começou a preparar um jogo de despedida para Juampi.
A partida foi em novembro, no estádio, 62 mil pessoas querendo ver o argentino entrar
pela última vez, dentro daquele gramado que trouxe tantas emoções para o ídolo.
O adversário foi o Argentinos Junior- seu primeiro e último clube, com isso, o
lateral jogou um tempo por cada time.
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| Sorín em sua despedida no Mineirão |
Juan Pablo Sorín teve uma
linda e vitoriosa carreira, sempre foi respeitado por todos os clubes por onde
passou. Encantou a todos com sua doação durante os jogos, seja partidas que
valiam títulos ou partidas que valiam alguns pontos, a raça e entrega era a
mesma. Ao anunciar sua aposentadoria, a dedicação foi citada pelo mesmo: “Foram muitos
anos e vou deixar essa carreira sabendo que sempre vesti a camisa, deixei alma,
deixei sangue”.
Nós
cruzeirenses podemos nos orgulhar de termos visto com o manto estrelado, um
jogador que aprendeu a amar e respeitar o Cruzeiro como Sorín aprendeu. Alguns
ainda mantêm a esperança de que um dia ele volte, agora como um dirigente. Mas,
por enquanto ele vem se dedicando a carreira de comentarista esportivo. Certo é
que, as portas do Cruzeiro sempre estarão abertas para aquele que nos ouviu
cantar: “Ei, Ei, Ei, Sorín é nosso rei!”.
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