Um tango, por vezes, é baseado em
uma tragédia, mas que ao final, pode encontrar alegrias. Todos nós temos o
nosso tango. Todos temos nossa vida ao som de Gardel. O meu tango se enrosca na
história de um argentino. Fala sobre um menino nos anos noventa, também
conhecido como ‘eu nos anos noventa’, que nem nos sonhos mais mirabolantes
imaginaria tudo o que aconteceu desde 2006 até aqui. Muito menos logo após a
saída do nosso maior ídolo, Fernandão, em 2008. E eu, como escritor, devo
acreditar na minha capacidade criativa, mas naquela altura do campeonato, onde
ser colorado era ser um bravo guerreiro lutando contra o sofrimento, imaginar
que teríamos um jogador tal qual foi D’alessandro era algo que beirava o
surreal e faria até Salvador Dalí criticar meus pensamentos tão fora da
realidade. Aquela criança sofredora viu um dos maiores ídolos desse clube, e
isso é um grande motivo de orgulho. Hoje eu me daria um hipotético abraço naquele eu de seis ou sete anos. Abraço com o significado de ‘calma que o que tem de
bom está por vir’. E veio.
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| Foto: Lauro Alves/Agência RBS |
Veio em 2006, mas também quando
aquele argentino com um piercing bagaceiro no canto da boca desembarcou no
Salgado Filho em um fim de uma tarde fria de julho. E nem o mais entusiasmado
colorado imaginaria o que, e no que, ele se tornaria.
D’alessandro chegou e gravou seu
nome na história do Inter. Foram 342 jogos, 10 títulos, prêmio de melhor
jogador da América, etc. Poucos se identificaram tanto com um clube quanto ele
se identificou e, nos tempos atuais, em que o dinheiro move o futebol mais que
tudo, alguém como D’alessandro no Inter é algo raro. Infelizmente. Jamais me
esquecerei das vezes em que vestiu a camiseta vermelha. Brigando, tomando cartão
desnecessário, dando chilique, provocando o rival, cadenciando o meio campo,
dançando um perfeito tango com os zagueiros ao aplicar o famoso ‘La Boba’,
dando assistências de craque, pulando da barca, fazendo golaços... Tudo isso
criou a “personalidade” D’alessandro. O folclore em torno do gringo. Enquanto
esteve aqui tudo girou em torno dele. O jogo, as conquistas, a imprensa, o
mundo inteiro. É inegável que o cara tem estrela. E não falo das duas marcadas
nos cotovelos. Seria muito egoísmo da nossa parte exigir que essa estrela brilhasse
só aqui.
Como toda a tragédia num tango é
acompanhada de belos passos, os daquele guri sofredor dos anos noventa foi ver
uma ‘Era D’alessandro’ logo após uma ‘Era Fernandão’. Ver a América em nossas
mãos mais uma vez e ver o maior camisa 10 que já vestiu essa camiseta rubra. E
digo isso com total certeza. D’ale, além de ídolo e líder, foi craque.
Hoje acordamos num mundo em que
Andrés D’alessandro não veste mais a camiseta do Internacional. Um mundo que eu
não queria que existisse. Mas vai-se o jogador e fica o mito. Nada apaga a rica
história construída as duras penas. O colorado cresceu ainda mais nos pés desse
argentino. Mas como toda a bela dança, também tem o seu final. Meus agradecimentos,
Cabezon. Até breve.
Escrito por Felipe Lopes

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